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Marcelo Rebelo de Sousa “EM NOME DE PORTUGAL, DE TODO O PORTUGAL, OBRIGADO MÁRIO SOARES”

 pt 23403 noticia marcelo rebelo de sousa em nome de portugal de todo o portugal obrigado marioInspirador lugar este em que nos encontramos, gentes de várias raízes e destinos, unidas pelo essencial: evocar e homenagear um Homem que fez História, sabendo que a fazia, mesmo quando tantos de nós nos recusávamos a reconhecê-lo.

Aqui, se fizeram mais de quinhentos anos de História.

Cada pedra nos fala das Áfricas, das Américas, da Ásias a que aportámos. Cada canto nos recorda os fastos de Quinhentos, as provações de Seiscentos, os sonhos de Setecentos, as guerras de Oitocentos e de Novecentos.

A memória de Herculano conta-nos essa História e outra mais antiga.

Mas, sobretudo, Gama mostra-nos os caminhos insondáveis da nossa aventura coletiva, Camões celebra a vocação universal que nos acompanha sem cessar, e Pessoa diz-nos que aventura e vocação se não desvaneceram, permanecem desassossego de hoje e acicate de amanhã.

Mais do que os respeitosos Paços do poder, em Belém ou em São Bento – relevantes mas circunscritos ao passado mais próximo –, este lugar é aquele que Mário Soares merecia para o nosso inesquecível encontro.

Porque nestes Jerónimos se convocam a História que estudou antes de a fazer, a Cultura que criou com talento e com deleite, e o ecumenismo que foi o corolário inevitável da sua inteligência e da sua liberdade.

E também o Humanismo e a Portugalidade.

Humanismo – na riqueza de uma Renascença Manuelina povoada de imagens dos novos mundos a que os portugueses iam chegando.

Portugalidade – na nossa capacidade de ir e de voltar, trazendo à Europa o que ela desconhecia.

Humanismo e Portugalidade – luminosos traços deste lugar, que tão bem se quadram ao Homem e à vida que viemos assinalar!

Humanismo que definiu Mário Soares – um Humanismo em que o iluminismo racionalista avulta, mas caldeado pelo conhecimento dos tempos que o antecederam, abrazado ao calor do liberalismo, enriquecido pelos socialismos variados – dos marxistas aos personalistas –, e, depois, vivido com a premência dos existencialismos e dos neo-realismos, fundindo letras e artes plásticas, tudo ao serviço de uma intervenção política e social incessantes e galvanizadora.

Porque de um Humanismo situado, combatente, militante se tratava, no afã de refazer Portugal.

Portugal – princípio e fim de um percurso que, para Mário Soares, era um desígnio. Mas um desígnio aberto.

Aberto à Europa, seu sonho e sua conquista, aqui conjurada a contribuir para um Mundo melhor, no Tratado celebrado neste mesmo claustro, em 1985.

Aberto à Comunidade que partilha a mesma língua, presente em todos os Continentes, e, por igual, no seu espírito.

Aberto ao mundo ibero-americano que o Atlântico une e projeta nas mais diversas latitudes e longitudes.

Aberto ao Universo, sem limites físicos ou espirituais.

Ao melhor jeito da nossa Portugalidade. Ambiciosa, generosa, fraternal, franqueada a tudo e a todos. É certo que, diversa da Portugalidade de tantos outros, que, sendo igualmente ecuménicos, teriam esperado por um Império imorredouro. Antes, Portugalidade lida à luz do realismo dos novos contextos e da liberdade dos povos.

Foi assim Mário Soares. À sua maneira, no seu tempo e no seu modo, singular Humanista e construtor de Portugalidade.

Por isso, aqui viemos e aqui estamos hoje. Com uma saudade feita futuro.

E, por isso, daqui partimos, lembrados da sua telúrica resistência, desafiados pela sua indómita vontade, gratos pela sua ilimitada coragem e liberdade, mobilizados para que não mais Portugal seja «meu remorso, meu remorso de todos nós» de O’Neill ou «o exílio que se inscreve em pleno tempo», de Sophia.

Recordando, ao invés, o mesmo Ricardo Reis que Mário Soares acabou por converter em lema de vida:

«Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes.»

Assim foi Mário Soares.

Assim o recordaremos par

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